quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A prole do purgatório.



E lá estava ele com o sorriso estampado no rosto, e não era um sorriso comum, mas aquele sorriso maléfico repuxando apenas o canto direito de seus lábios cheios de sangue que escorria pelo seu maxilar. Seu olhar era óbvio, estava mais do que claro que o que havia nos seus olhos era raiva, o sabor da vingança e o desejo de mais sangue. Seus cabelos negros e escorridos caíam parcialmente sobre sua testa suada, enquanto o resto permanecia um tanto quanto atrapalhado, dando-lhe um ar ousado. Sua pele era de um branco acinzentado que se destacava numa fria madrugada de outono, chamando a atenção de qualquer um para seus olhos heterocrômicos, sendo o esquerdo tonificado de vermelho vivo e o direito repleto de um azul-esmeralda.
Ele observava duas pessoas caídas sobre poças de sangue no chão bem a sua frente, um homem com sua cabeça separada do seu corpo há uns dois metros de distância, a mulher estava logo ao seu lado, sua cabeça estava no lugar, no entanto seu abdome estava completamente rasgado, suas vísceras haviam sido devoradas por aquela estranha criatura.
Ele virou-se para o garoto que restava, um garoto magro com seu cabelos loiros imundos, que estava bem atrás dele, amarrado e amordaçado, tinha uns treze anos e estava completamente apavorado com toda aquela cena assustadora. Em seguida dirigiu-se até a criança e arrancou a mordaça, permitindo que o menino soltasse um último grito com o resto de sua força:
- SOCORRO!!!! -O desespero era notável em sua voz-.
A criatura gargalhou de forma macabra e estridente. O medo da criança alimentava sua sede por mais crueldade e malevolência.
O garoto insistiu:
- Socorro!!!!!!!!!!!! –mas a voz não saía mais com tanta eficácia-.
Então a criatura soltou suas primeiras palavras:
- Cale-se. Ninguém te ouvirá no meio do nada, não há uma alma penada aqui além de nós... ou devo dizer, você, já que a minha alma se perdeu há algum tempo.
-Por favor, solte-me, eu lhe imploro, solte-me.
-Por que eu deveria? –gargalhou novamente- Talvez seja mais fácil o homem sem cabeça levantar ali do chão e vir te salvar do que surgir um pingo de compaixão da minha parte. – O sarcasmo predominava sua voz-
 -O que você é?
Ele se encurvou até o garoto, olhou diretamente nos olhos, envergou sua cabeça para o lado e disse:
-Você pode escolher. Eu sou aquele que pode transformar seu destino, ou posso ser o seu pior pesadelo.
O arrepio percorreu cada canto da espinha daquele garoto.
-Por que você fez aquilo com meus pais? Me solte, por favor. Eu não quero morrer.
-Você não vai morrer, criança estúpida –disse-lhe agressivamente-. A menos que não se comporte. Tenho grandes planos para você.
-Quem é você? O que é você? –A criança colocou-se a chorar desesperadamente, debatendo-se. A corda apertava seus pulsos amarrados a suas costas, já estavam em carne viva de tanto que ele se repuxava pelo pavor que sentia na presença daquela criatura-.
-Shhh, shhh, shhh –fez a criatura, colocando seu dedo indicador sobre os lábios do menino, que sentiu a pele áspera e notou sua unha um tanto quanto comprida, quebrada e amarelada- ,pode me chamar de... Elliot, e eu vou contar-lhe minha história, ou até mesmo a sua.
Ele levantou e começou a caminhar de um lado para o outro, iniciando sua história:
-Digamos que seus pais tinham algo que me pertence. Mas, vamos começar do começo. Há cerca de dois séculos atrás, 1813 para ser exato, eu vivia como humano assim como vocês, mas eu gostava de sequestrar belas mulheres, com aqueles vestidos que mantinham seus seios erguidos e deliciosamente à mercê. Mulheres que se passavam por recatadas, mas não podiam ver um par de calças na sua frente. Não passavam de prostitutas imundas.Eu as levava para uma casa de madeira numa rua deserta, costumava amarrá-las à cama e rasgava suas roupas até estarem completamente nuas, proporcionando terror psicológico extremo. Eu não me satisfazia apenas por abusá-las sexualmente, eu gostava de sangue, terror, medo. Tudo isso me excitava.
Ele parou e olhou para o menino, que o observava incrédulo e transparecia o medo. A criatura gostava de tudo aquilo, era excitante para ele ver todo aquele terror, ele gostava de ser sádico e mau. Voltou a caminhar de um lado para o outro contando a história:
-Depois de alguns anos, o povo todo da cidade já sabia quem eu era, o que eu fazia. Então eu me escondi, mas eles me acharam,fui amarrado e amordaçado, assim como você –ele riu, cruelmente-, me levaram para um lugar no meio do nada e fizeram uma seita, disseram algumas palavra inapreensíveis, o lugar era repleto de vários símbolos, um mais estranho que o outro, várias tochas ao redor e homens que seguravam seus lampiões.Todos estavam vestidos com túnicas pretas e capuz. Então ao terminar o ritual, um buraco no final daquele morro se abriu, e eu fui jogado. E posso te dizer que aquele lugar não é nada bom para um marinheiro de primeira viagem.
O garoto assistia tudo aquilo assustado, o pânico inundava seu interior cada vez mais. Então ele disse:
-Que lugar era esse?
Elliot enrijeceu-se, pareceu severo e disse rispidamente:
-Purgatório, um lugar nada agradável, como já disse. Agora deixe-me continuar... Fui torturado milhares e milhares de vezes, fui estilhaçado, e sentia a dor mais insuportável que já sentira. Tudo o que eu desejava era a morte, mas eu já estava praticamente morto. Por lá eu encontrei não apenas outras almas, mas criaturas que ganharam vida muito antes de anjos e demônios, eles eram os leviatãs. As piores criaturas que já encontrei em todos os tempos, se você me acha cruel, espere até conhecê-los. Eu os observava torturar outras almas enquanto eu estava no meu “tempo livre”. De tanto sofrer você fica mais indolor, você começa a não se importar mais com a dor, eu comecei a absorver energia de todas as almas que já não se aguentavam mais, almas que assim como eu desejavam a morte. E por muito tempo eu passei acumulando mais energia dessas almas, até que um dia consegui escapar junto com algumas almas para fora por uma brecha aberta, em uma tentativa de seita. Tudo o que consegui foi encontrar esse corpo, esse rapaz tinha acabado de morrer. Até que dá para o gasto, no entanto tudo o que eu preciso é me alimentar de humanos, e isso é um tanto quanto divertido para mim. Então voltei a fazer o que eu mais gostava de fazer quando eu era um humano, sequestrar prostitutas. Advinha quem eu encontrei certa noite? –Ele sorriu, seus olhos estavam cheios de euforia pelo medo do garoto- A mulher ali no chão.
O menino não podia acreditar, sua mãe, uma prostituta? Isso era impossível, ela esteve com seu pai desde os tempos do colegial.
-Ela nunca foi tão inocente quanto você sempre achou – disse-lhe Elliot, que gostava de toda aquela cena-. Mas, eu não a matei, não me aproveitei... digamos que a contratei por uma noite. Meu objetivo? Eu precisava de uma prole. Você tem ideia do quanto uma prole de um ser que já esteve no purgatório e tem o poder de tantas almas pode se tornar poderosa?
O menino estava boquiaberto, ele não podia acreditar, agora tudo fazia sentido, seus pesadelos com aquele lugar horrível, o limbo todo em seus sonhos, o cara que ele sempre conversava nos sonhos, estava bem a sua frente. Seu verdadeiro pai, estava a sua frente e acabara de matar e se alimentar de sua mãe friamente, sem nenhuma pena enquanto ele assistia. Elliot disse-lhe:
- Eu sempre estive presente nos seus sonhos, todos esses treze anos passei me alimentando desses humanos estúpidos, que só fazem peso no mundo, enquanto esperava você chegar a idade certa. Eu conversava com você muitas vezes nos seus sonhos, eu estava te observando todo esse tempo, enquanto você dormia. Eu cuidei de você todo esse tempo para que você não sofresse nenhum acidente, porque eu preciso de você, FILHO. E agora chegou a hora, você precisa descobrir sua força, você precisa se tornar mais forte e se alimentar de todas aquelas almas, você passará por toda a dor que passei e então se tornará melhor que eu, e um dia juntaremos nossas forças e voltaremos para nos procriarmos mais, mais e mais, e não haverá quem nos derrote. –A excitação tomava conta da voz de Elliot-. Agora está na hora.
O garoto começou a chorar desesperadamente, se debatia e gritava por socorro, Elliot começou a dizer palavras estranhas, seus olhos se tornaram neon e seus cabelos esvoaçavam a ventania que surgira repentinamente, então um símbolo foi desenhado no chão com o sangue de seus pais e um buraco se abriu. Elliot disse:
- Esta é a hora, David, o grande dia chegou.
Elliot desamarrou o menino e o carregou em seus braços, que gritava freneticamente em busca de socorro.
-Não adianta gritar, agradeça-me pela oportunidade que estou te dando.
David deu uma última olhada para sua mãe que se estendia morta no chão e então entrou para dentro do abismo nos braços de Elliot. Onde seus pesadelos estavam prestes a se tornar realidade.

                       
                     Alexandre Barros, 15/12/2012

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